A alegria não é a prova dos nove (ou um arquipélago de singularidades)
BONANÇA
Curadoria de | curated by Alexandre Sá
Sala das Projeções
Casa França Brasil, RJ
mostra individual | solo show
07 a 30 julho 2022
BONANÇA
2022
Série A JOIA DA COROA | The Crown Jewel series
Interferência espacial | spatial interference
Painel de gaze de linho branco com pedra dolomita e bordados feitos com fio de lã branca e fio dourado | white linen gauze panel with dolomite stone and embroidery made with white wool and gold thread
320 x 1000 x 280 cm
Painel realizado em tecido branco com o mapa do Brasil bordado em branco, uma rota de um caminho usado pelos indígenas desde a antiguidade se destaca em linha dourada. O contorno do mapa foi bordado no lado correto do tecido, porém os outros detalhes foram bordados por trás para sinalizar que o país se encontra às avessas.
Pesquisando sobre as rotas de fuga, concentrei minha atenção num movimento oposto de alguns povos: caminhos percorridos em busca do bem.
O primeiro caminho encontrado foi justamente no Brasil o Caminho do Peabiru, rota que foi construída e utilizada por civilizações existentes há mais de 10 mil anos. Este caminho ligava o Oceano Atlântico a partir de Santa Catarina, Paraná ou São Paulo até o Oceano Pacífico atravessando o Peru. Os povos da época faziam escambos através desse caminho e os portugueses quando aqui chegaram também o utilizaram para desbravar o país.
Resquícios do Caminho do Peabiru podem ser encontrados ainda em algumas cidades do sul, porém ele existe até hoje na filosofia indígena como um caminho na busca dos seus deuses, no reencontro com suas divindades que eles acreditam estarem no Oceano Atlântico e no Oceano Pacífico e que esses deuses virão buscá-los e levá-los para outra dimensão.
Enfim é o caminho do Bem como os indígenas o proclamam; este caminho foi demarcado com linha dourada no mapa do Brasil bordado no painel BONANÇA, que como o título sugere, a paz para o país como um sonho dourado possível.
english
A panel made of white fabric with a map of Brazil embroidered in white, a route of a path used by indigenous people since ancient times is highlighted in gold thread. The outline of the map was embroidered on the right side of the fabric, but the other details were embroidered on the back to show that the country is inside out.
While researching escape routes, I focused my attention on the opposite movement of some peoples: paths taken in search of the good.
The first path found was precisely in Brazil, the Caminho do Peabiru, a route that was built and used by existing civilizations more than 10,000 years ago. This path connected the Atlantic Ocean from Santa Catarina, Paraná or São Paulo to the Pacific Ocean through Peru. The peoples of the time made trade through this route and when the Portuguese arrived here, they also used it to explore the country.
Remnants of the Caminho do Peabiru can still be found in some southern cities, but it still exists today in indigenous philosophy as a path in search of their gods, in re union with their deities who they believe are in the Atlantic Ocean and the Pacific Ocean and that these gods will come to get them and take them to another dimension.
In short, it is the path of Good as the indigenous people proclaim it; this path was marked out here with a golden line on the map of Brazil embroidered on the BONANÇA panel, which, as the title suggests, is peace for the country as a possible golden dream.
BONANÇA + video BASTAAA!!! 2022 (detalhes | details)
BASTAAA!!!
2022
Vídeo
Vídeo criado ao exclamar BASTAAA!!! após explosão de indignação diante de uma notícia revoltante.
Foi a gota d’água! O pote transbordou!
Homenagem aos artistas Chico Buarque e Gilberto Gil, foi apresentado em monitor, à direita no fundo da sala.
english
Video created by exclaiming BASTAAA !!! outburst of indignation in the face of revolting news.
It was a the last straw! I’ve had enough!
A tribute to the artists Chico Buarque and Gilberto Gil, shown on the monitor at the back of the room on the right.
A alegria não é a prova dos nove
(ou um arquipélago de singularidades)
… também é deste modo que o destino costuma comportar-se conosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual
José Saramago
Ê bumba-iê-iê boi
Ano que vem, mês que foi
Ê bumba-iê-iê-iê
É a mesma dança, meu boi
Gilberto Gil e Torquato Neto
A alegria não é a prova dos nove é um projeto de ocupação da Casa França-Brasil com curadoria de Alexandre Sá, que não se inscreve como exposição coletiva, no sentido de uma construção ampliada com trabalhos diversos de modo a potencializar questões em comum. Trata-se, de revés, como explícito no subtítulo, de um arquipélago de pontos singulares, excêntricos, capazes de provocar, como indica o dicionário, a construção de um espaço-tempo onde as leis da física entram em colapso. Ou mais concretamente, de um conjunto de exposições individuais de artistas com poéticas díspares que atravessarão o barco do desejo de pensarem seus próprios trabalhos em relação à arquitetura da Casa França-Brasil a partir de um mote determinado: a frase já conhecida de Oswald de Andrade do Manifesto Antropófago, na qual a alegria surge como um sentimento capaz de provar operações elementares ou como prova inquestionável da relação, não necessariamente aditiva, entre eixos. Aqui para nós, a alegria não é passível de tal operação. Talvez ela nem mesmo possa caber em tamanha responsabilidade lógica.
Os tais 100 anos da Semana de Arte Moderna surgem apenas como névoa para que possamos pensar o Brasil, não necessariamente primitivo, mas profundo como um tropeço, como uma epifania, a partir de questões individuais que se colocarão nesse prédio e em sua (nossa) história. O desejo indiciário não é pensar o país estrito e dicotômico dentro de uma talvez já obsoleta cidade partida, mas discorrer em algum silêncio sobre aquele algo do país que ainda murmura, apesar de. Sem desconsiderar tantas histórias e narrativas que por aqui passaram, bem como seus bons fantasmas que talvez conosco, problematizem a velha tensão entre nós e os interesses internacionais.
Exatamente por isso, as ilhas desconhecidas do nosso arquipélago promoverão outras nuvens, sem nenhuma assertividade de precipitação, para que o público, de acordo com sua deambulação física e emocional, vá construindo suas teias de afeto, luto e regeneração.
Exatamente por isso, uma das possíveis chaves que abrirão as portas quânticas que carregamos no peito, é um diálogo com a música Geleia Geral (em seu título emprestado de Décio Pignatari) de Torquato Neto e Gilberto Gil. Este último, buda nagô, precioso aniversariante em 2022 com seus 80 anos, assim como Caetano Veloso, Milton Nascimento e Paulinho da Viola, nos lembra que “A alegria é a prova dos nove. E a tristeza é teu porto seguro.”
Para nós, aqui, ainda dentro do navio naufragado, talvez seja possível apostar em xeque mate soçobrando que, se a alegria não é a prova dos nove, a tristeza também não é mais o nosso porto seguro. A questão que evola-se é reconstruir alguma maturidade outra para que desconfiemos um pouco dos portos, das âncoras, dos reis, das nossas certezas e de nós mesmxs. Para que pensemos uma rota outra de navegação coletiva, conscientemente frágil da fragilidade que implica em sabermos que antropofagia é o norte fundamental para toda e qualquer relação que sobrevive em nós e que não merecer ser obrigatoriamente violenta. Marulho.
Alexandre Sá
28 de julho de 2022
Bonança
(da série A joia da coroa) Ivani Pedrosa
por Alexandre Sá
“Volta então a questão. O que
é um estrangeiro? O que seria
uma estrangeira? Não é
apenas aquele ou aquela no
estrangeiro, no exterior da
sociedade, da família, da
cidade. Não é o outro, o outro
inteiro relegado a um fora
absoluto e selvagem, bárbaro,
pré-cultural ou pré-jurídico,
fora e aquém da família, da
comunidade, da cidade, da
nação ou do Estado. A relação
com o estrangeiro é regulada
pelo direito, pelo devir-direito
da justiça.”
Jacques Derrida
Por um ato falho dos meus dedos, escrevi Bonanza ao invés de Bonança no começo desta página. Em alguns segundos, pisquei os olhos e pude perceber o tropeço, não necessariamente tão ingênuo assim. Mesmo sem ter assistido, inscrevi como título da exposição de Ivani Pedrosa, o mesmo nome de um seriado americano de muito sucesso. Um faroeste. À despeito da narrativa, me pareceu curioso como ainda há algo em nosso território que é da ordem da posse, do latifúndio, da terra, do agronegócio e dos estrangeirismos. Mas talvez, nada disso interesse a Ivani Pedrosa. Talvez. Puro talvez. Como acontece nos melhores casos, o trabalho, já estrangeiro, trai a artista e aponta para uma profusão de questões que inicialmente pareciam distantes.
Bonança, instalação feita especificamente para a Casa França-Brasil, faz parte da série A joia da coroa, que Ivani Pedrosa realiza durante a pandemia como forma de curar-se do quantitativo cavalar de imagens, notícias, tragédias e horrores cotidianos que nos assolaram (e ainda assolam). Para isso, a artista opta pelo branco e por variações pictóricas mínimas, como se fizesse um manifesto íntimo a favor da paz e de novos recomeços. O jogo duplo que o trabalho inventa é que, como a artista utiliza como referenciais simbólicos o mapa e a bandeira do Brasil, eles terminam, com o branco, perdendo aquilo que talvez estruture seu clichê: a cor. E intensificam, por outro lado, o apagamento inevitável da multitude, como se também guardassem consigo, a palidez histórica. Nesse sentido, o título da série, A joia da coroa, também surge como desaparecimento, indicando que a coroa, num outro jogo entre vilipendiada e vilipendiadora, talvez seja apenas algo de memória que se colocaria como resto para a reafirmação impossível do dispositivo de poder. Trata-se então da construção de uma atmosfera lírica de materialidade épica de um Brasil já cansado e consideravelmente em ruínas, mas que exatamente por isto, considerando seu processo violento e intermitente de recomeço, merece estar pronto, em breve, para outras histórias.
english
Bonança
(series A joia da coroa series) Ivani Pedrosa
by Alexandre Sá
“So the question comes back.
What is a foreigner? What would
a foreigner be? It’s not just the
one abroad, outside society,
the family, the city. It is not the other,
the whole other relegated to an absolute
and savage, barbaric, pre-cultural or
pre-legal outside, outside and below
the family, the community, the city,
the nation or the state. The relationship
with the foreigner is regulated by law,
by the becoming-law of justice.”
Jacques Derrida
Through a faulty act of my fingers, I wrote Bonanza instead of Bonanza at the beginning of this page. In a few seconds, I blinked and realized my mistake, which wasn’t necessarily that naive. Even though I hadn’t seen it, I had written the title of Ivani Pedrosa’s exhibition in the same name as a very successful American TV series. A western. Despite the narrative, it struck me as curious how much of our territory is still about possession, latifundia, land, agribusiness and foreignness. But perhaps none of this interests Ivani Pedrosa. Maybe. Purely perhaps. As happens in the best cases, the work, already foreign, betrays the artist and points to a profusion of issues that initially seemed distant.
Bonança, an installation made specifically for Casa França-Brasil, is part of the series A joia da coroa, which Ivani Pedrosa created during the pandemic as a way of healing herself from the sheer quantity of images, news, tragedies and daily horrors that plagued (and still plague) us. To do this, the artist opts for white and minimal pictorial variations, as if she were making anintimate manifesto in favor of peace and new beginnings. The double game that the work invents is that, as the artist uses the map and the Brazilian flag as symbolic references, they end up, with white, losing what perhaps structures their cliché: color. On the other hand, they intensify the inevitable erasure of the multitude, as if they also kept the historical pallor with them. In this sense, the title of the series, The Jewel in the Crown, also appears as a disappearance, indicating that the crown, in another game between vilified and vilifying, is perhaps just something of memory that stands as a remnant for the impossible reaffirmation of the power device. It is therefore a question of building a lyrical atmosphere of epic materiality of a Brazil that is already tired and considerably in ruins, but which precisely because of this, considering its violent and intermittent process of starting over, deserves to be ready, soon, for other stories.
