DES_IGUAL
Martha Pagy Escritório de Arte
Rio de Janeiro, RJ
mostra individual | solo show
22 maio a 08 agosto 2025
Fotos: Mario Grisolli
DES_IGUAL
A exposição DES_IGUAL apresenta um recorte do trabalho de Ivani Pedrosa para questões atuais e urgentes, como os conflitos mundiais, os efeitos da globalização e os limites entre identidade e território. A partir da observação do cotidiano e das transformações profundas do “estar no mundo”, a artista construiu séries que desenvolveram diferentes temas com consistência poética e formal. Entre eles, destacam-se: Espaço Amplificado, Imagem Amplificada, Controle, Fronteiras, Paisagem Possível, A Joia da Coroa e Silêncio.
Em DES_IGUAL, Ivani parte de um gesto simbólico e visual: a desconstrução de bandeiras nacionais de países em conflito, cujos núcleos e formas são reorganizados em composições pictóricas delicadas, indicando novos padrões possíveis. O que antes representava divisão e disputa é ressignificado em beleza e diálogo.
Ao evitar o confronto direto, a artista propõe caminhos sutis de reflexão sobre pertencimento, alteridade e paz.
A exposição ecoa o conceito de “infamiliar” proposto por Freud – a presença do estranho no lugar do que deveria ser acolhedor – e retoma uma linha de investigação sobre o “Narciso Contemporâneo”, onde o “eu” se sobrepõe ao coletivo, seja em indivíduos ou em nações.
Nesse contexto, a arte surge como território de resistência sensível, capaz de abrir brechas de significado diante do colapso simbólico do mundo.
A mostra é completa com obras silenciosas e esculturas que evocam a ideia de ninho, ovo e espelhamento. São formas que falam de abrigo, origem e encontro – elementos fundamentais para pensar o estar-no-mundo, individual e coletivamente.
Como respiro final, a artista insere uma citação de Mia Couto, pela voz do personagem João Sabão, que reverbera o espírito da mostra:
“Encheram a terra de fronteiras e carregaram o céu de bandeiras. Mas só há duas nações – a dos vivos e a dos mortos.”
Martha Pagy
maio 2025
english
The exhibition DES_IGUAL presents a selection of Ivani Pedrosa’s artwork on current and urgent issues, such as global conflicts, the effects of globalization, and the boundaries between identity and territory. Based on observations of everyday life and the profound transformations of “being in the world,” the artist has created series that develop different themes with poetic and formal consistency. Among them are: Amplified Space, Amplified Image, Control, Borders, Possible Landscape, The Crown Jewel, and Silence.
In DES_IGUAL, Ivani starts from a symbolic and visual gesture: the deconstruction of national flags of countries in conflict, whose cores and shapes are reorganized into delicate pictorial compositions, indicating new possible patterns. What once represented division and dispute is reinterpreted as beauty and dialogue.
By avoiding direct confrontation, the artist proposes subtle paths of reflection on belonging, otherness, and peace.
The exhibition echoes Freud’s concept of the “unfamiliar” – the presence of the strange in a place that should be welcoming – and revisits a line of investigation into the “Contemporary Narcissus,” where the “self” overlaps with the collective, whether in individuals or nations.
In this context, art emerges as a territory of sensitive resistance, capable of opening gaps of meaning in the face of the symbolic collapse of the world.
The exhibition is complete with silent works and sculptures that evoke the idea of a nest, an egg, and mirroring. These are forms that speak of shelter, origin, and encounter – fundamental elements for thinking about being in the world, individually and collectively.
As a final breath, the artist inserts a quote from Mia Couto, through the voice of the character João Sabão, which echoes the spirit of the exhibition:
“They filled the earth with borders and loaded the sky with flags. But there are only two nations – the living and the dead.”
Martha Pagy
may 2025
DES_IGUAL
de IVANI PEDROSA
“Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras.
Mas só há duas nações – a dos vivos e a dos mortos.”
(Juca Sabão em ‘Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra‘)
Mia Couto
Desigual é uma palavra-conceito que reúne em si um grande paradoxo: adjetiva o diferente, o irregular, o inconstante, podendo abraçar variados significados, positivos ou negativos. Significa também aquilo que é injusto, e nesse caso cria uma dimensão específica. Na história da humanidade, a igualdade sempre foi aclamada utopicamente para mover as coletividades contra imposições de poderes econômicos, sociais, religiosos ou políticos.
Vivemos hoje em um mundo desencantado pelo falimento da globalização e de sua utópica ideia de união e igualdade, dilacerado por guerras, extrações e explorações, onde se constroem mais muros que pontes.
Estamos já anestesiados diante das incessantes barbáries cotidianas?
Conseguimos ter ainda alguma alteridade e empatia para ler o mundo e criar paz em vez de conflito?
O que poderia nos salvar dessa paisagem desoladora?
Diante deste dilema, mesmo sem ser concretamente resolutiva, ainda temos a Arte… que como linguagem e meio de comunicação e expressão nos traz respiro e move nossa capacidade de percepção, e por consequência, de reação. A Arte como território de reflexão e diálogo com o nosso tempo pode parecer algo alienado ou afastado dos fatos reais, impotente. Mas aqui, Ivani Pedrosa nos apresenta uma olhar despretensioso e leve para esse mundo desigual pelo prisma da alegria, do jogo de cores, formas e imagens, e também do silêncio.
A artista consegue tocar em pontos cruciais e altamente espinhosos do nosso atual panorama mundial sem sair da sua investigação poética, atuando por contraste entre o tema-peso e obra-leveza, ofertando-nos uma possibilidade de reflexão delicada e ao mesmo tempo contundente. Correndo o risco de parecer desrespeitosa no seu gesto quase infantil em ‘brincar’ com formas e cores que identificam nações, suas ‘Bandeiras desconstruídas‘ de países hoje em guerra, minimizam o peso do simbólico que iguala e que também difere, demostrando como tudo e todos somos portadores de mil possibilidades de interações e desdobramentos. A desconstrução e a nova construção são então operações de abertura para mudanças de panoramas externos e internos. Se reinventar, ser igual e diferente ao mesmo tempo. Entramos assim no universo particular da Arte, onde não existe ofensa nem conflito, mas a pura liberdade de criação, e não por isso destituída de uma mensagem clara. Homenagear outros artistas ligados àquelas nações dentro desta série é também um modo de reafirmar a Arte como viés fundamental para pensar o mundo.
De forma mais discreta, obras que tendem ao silêncio, construídas com dinâmicas similares porém com predominância da cor branca através da sutil conciliação de símbolos ou composições abstratas que administram espaços e territórios afins ou de conflitos, são também evocações e pedidos de paz. Por fim, pequenas esculturas completam a narrativa da mostra, onde o conceito de ninho-ovo e o espelhamento do material metálico trazem uma importante camada de significado: o eu-outro como parte fundamental de pensar o estar-no-mundo, individual ou coletivamente. Sussurros pendurados em tiras fecham esse percurso com citações de escritores, filósofos e artistas, que nos avisam que apesar da Arte ser uma via indireta de contato com a realidade, ela se manifesta igualmente através das brechas de cada obra e de cada olhar.
Cristiane Geraldelli
